Uma reflexão sobre como às vezes acabamos presas em outras gaiolas quando tentamos fugir dos ideais.
Antes de começar a de fato responder
a pergunta do título, eu preciso que você pense em qualquer personagem feminina
que se destaca para o par romântico por se distanciar das demais e se encaixar na tal e famosa frase: “Você não é como as outras garotas”.
As chances são grandes de que
a personagem imaginada se encaixe em algum estereótipo recente de mulheres em
histórias de romance. Temos, por exemplo, as Manic Pixie Dream Girls, aquelas
personagens adoráveis que possuem gostos e figurinos alternativos, são cheias
de vida, belas e geralmente engraçadas. Ou as Cool Girls – a garota que é como
os caras, bebe cerveja, joga videogame, transa a qualquer hora e em qualquer
lugar, nunca faz drama – e é gostosa, claro, sempre gostosa.
Nenhuma dessas características
seriam problemáticas se a Manic Pixie Dream Girl e a Cool Girl não fossem
basicamente só isso – ou seja, personagens bidimensionais – e não existissem
apenas para desenvolver ou satisfazer o protagonista homem. Mas seria
muito injusto de minha parte dizer que só as MPDG e as Cool Girls se encaixam
no ideal “Você não é como as outras” (o ideal fora do ideal). Muitas
personagens verdadeiramente inspiradoras podem se encaixar nessa frase (que
muitas vezes vem disfarçada, diga-se de passagem).
"Não se encontra uma garota como aquela em toda a dinastia" é a frase que o imperador diz sobre Mulan - um filme que trata sobre machismo sistêmico, como eu tratado nesse texto aqui que eu recomendo a leitura.
Infelizmente, como vimos,
falas como essas acabam criando outros estereótipos – como o das heroínas masculinizadas, por exemplo (embora esse não seja o caso da Mulan) – e acabam
não respondendo à pergunta essencial: Quem são as garotas extraordinárias?
Explico. Até aqui, venho
falando de ficção. Mas eu realmente quero saber quem são essas garotas na vida
real. Afinal, como diria Viola Davis:
"Arte tem que refletir a vida, se não, não é arte. É comércio. É um tipo filtrado e diluído de arte. O que eu quero ver é a verdade."
É claro que Hollywood é um
comércio, e dos mais lucrativos, mas personagens extraordinárias – tanto
as complexas Mulans, como as rasas Manic Pixie Dream Girls – retratam ou criam
ideais para as mulheres em nossa sociedade. Então eu me questiono: Quem é essa
garota? E eu encontro a resposta em meu espelho. Eu sou/fui uma "não como
as outras".
Eu fui na minha infância uma
garota que dizia gostar de matemática (eca!) pra me diferenciar das demais.
Diversas vezes eu tentei gostar de coisas consideradas masculinas para competir
pela atenção dos meninos com outras garotas (preciso dizer que “Você não é como
as outras” estimula a rivalidade feminina?). E mesmo depois que eu parei de
tentar ser uma MPDG (porque, bem, elas não existem), eu continuei sendo
rotulada como uma garota extraordinária, porque eu fui uma adolescente
extremamente tranquila e estudiosa, e hoje eu sou uma mulher adulta que foi
criada para se comportar muito bem dentro do padrão de feminilidade. Quase uma
Rory Gilmore (que, aliás, mostra no revival que ser uma garota extraordinária
não garante tudo na vida).
Ser extraordinária,
especialmente quando você se sente deslocada na escola, é muito legal. Estar
numa redoma e ouvir que todas as outras deveriam ser como você é no mínimo
confortável, até que percebe-se algo que Schopenhauer já dizia: “Todo homem toma os limites de seu próprio campo
de visão como os limites do mundo”. Porém, o vidro da redoma não te
permite enxergar muito bem.
No meu círculo de amizades
sempre existiram essas “outras”, mas até então a minha individualidade
vinha anulando a delas, e eu só parei de vê-las como meu oposto eu fui acolhida
por elas. Foi quando eu de fato entendi que elas não eram um estereótipo,
e sim pessoas: Todas as “outras” tem ótimas histórias pra contar, ideias,
pontos de vistas, sonhos e histórias de vida no geral. Pasmem: ao contrário do
que muito da cultura pop quer que você acredite, existe diversidade e
complexidade nas “outras”. É preciso abandonar, de uma vez por todas, essa
crença de que mulheres são superficiais e fúteis. Só assim pararemos de valorizar uma mulher desmerecendo outra.
As mulheres extraordinárias
existem de todas as formas. Elas não são as mulheres “para casar”, não são só as
belas, recatadas e dos lares, e nem só aquelas que negam todos os estereótipos
de gênero impostos pela sociedade. As mulheres extraordinárias são as que
resistem na Síria, são as que assumem cargos de chefia, são as donas de casa, é
a Ana do conto “Amor” da Clarice Lispector, é a Arya de Game of Thrones e
também é a Sansa. É a Alice, que, cansada de tanto ser questionada e rotulada,
responde ao Absolem quem ela de fato é.
Isso porque eu percebo que, se
mulheres não são um bloco homogêneo, não se deve definir uma normalidade de ser
mulher. Por isso todas – até aquelas que não passaram na peneira machista – são
mulheres extraordinárias. Inclusive eu, que escrevi esse texto, e também você,
que o lê.
Texto publicado originalmente em 25 de abril de 2017 no Nó de Oito.




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