sábado, 22 de junho de 2019

"Você não é como as outras": Quem são as mulheres extraordinárias, afinal?

Uma reflexão sobre como às vezes acabamos presas em outras gaiolas quando tentamos fugir dos ideais.

Antes de começar a de fato responder a pergunta do título, eu preciso que você pense em qualquer personagem feminina que se destaca para o par romântico por se distanciar das demais e se encaixar na tal e famosa frase: “Você não é como as outras garotas”.

As chances são grandes de que a personagem imaginada se encaixe em algum estereótipo recente de mulheres em histórias de romance. Temos, por exemplo, as Manic Pixie Dream Girls, aquelas personagens adoráveis que possuem gostos e figurinos alternativos, são cheias de vida, belas e geralmente engraçadas. Ou as Cool Girls – a garota que é como os caras, bebe cerveja, joga videogame, transa a qualquer hora e em qualquer lugar, nunca faz drama – e é gostosa, claro, sempre gostosa.

Nenhuma dessas características seriam problemáticas se a Manic Pixie Dream Girl e a Cool Girl não fossem basicamente só isso – ou seja, personagens bidimensionais – e não existissem apenas para desenvolver ou satisfazer o protagonista homem.  Mas seria muito injusto de minha parte dizer que só as MPDG e as Cool Girls se encaixam no ideal “Você não é como as outras” (o ideal fora do ideal). Muitas personagens verdadeiramente inspiradoras podem se encaixar nessa frase (que muitas vezes vem disfarçada, diga-se de passagem).  

"Não se encontra uma garota como aquela em toda a dinastia" é a frase que o imperador diz sobre Mulan - um filme que trata sobre machismo sistêmico, como eu tratado nesse texto aqui que eu recomendo a leitura.

Infelizmente, como vimos, falas como essas acabam criando outros estereótipos – como o das heroínas masculinizadas, por exemplo (embora esse não seja o caso da Mulan) – e acabam não respondendo à pergunta essencial: Quem são as garotas extraordinárias?
Explico. Até aqui, venho falando de ficção. Mas eu realmente quero saber quem são essas garotas na vida real. Afinal, como diria Viola Davis:

"Arte tem que refletir a vida, se não, não é arte. É comércio. É um tipo filtrado e diluído de arte. O que eu quero ver é a verdade."

É claro que Hollywood é um comércio, e dos mais lucrativos, mas personagens extraordinárias  – tanto as complexas Mulans, como as rasas Manic Pixie Dream Girls – retratam ou criam ideais para as mulheres em nossa sociedade. Então eu me questiono: Quem é essa garota? E eu encontro a resposta em meu espelho. Eu sou/fui uma "não como as outras".

Eu fui na minha infância uma garota que dizia gostar de matemática (eca!) pra me diferenciar das demais. Diversas vezes eu tentei gostar de coisas consideradas masculinas para competir pela atenção dos meninos com outras garotas (preciso dizer que “Você não é como as outras” estimula a rivalidade feminina?). E mesmo depois que eu parei de tentar ser uma MPDG (porque, bem, elas não existem), eu continuei sendo rotulada como uma garota extraordinária, porque eu fui uma adolescente extremamente tranquila e estudiosa, e hoje eu sou uma mulher adulta que foi criada para se comportar muito bem dentro do padrão de feminilidade. Quase uma Rory Gilmore (que, aliás, mostra no revival que ser uma garota extraordinária não garante tudo na vida).

Ser extraordinária, especialmente quando você se sente deslocada na escola, é muito legal. Estar numa redoma e ouvir que todas as outras deveriam ser como você é no mínimo confortável, até que percebe-se algo que Schopenhauer já dizia: “Todo homem toma os limites de seu próprio campo de visão como os limites do mundo”. Porém, o  vidro da redoma não te permite enxergar muito bem.

No meu círculo de amizades sempre existiram essas “outras”,  mas até então a minha individualidade vinha anulando a delas, e eu só parei de vê-las como meu oposto eu fui acolhida por elas.  Foi quando eu de fato entendi que elas não eram um estereótipo, e sim pessoas: Todas as “outras” tem ótimas histórias pra contar, ideias, pontos de vistas, sonhos e histórias de vida no geral. Pasmem: ao contrário do que muito da cultura pop quer que você acredite, existe diversidade e complexidade nas “outras”. É preciso abandonar, de uma vez por todas, essa crença de que mulheres são superficiais e fúteis. Só assim pararemos de valorizar uma mulher desmerecendo outra.

As mulheres extraordinárias existem de todas as formas. Elas não são as mulheres “para casar”, não são só as belas, recatadas e dos lares, e nem só aquelas que negam todos os estereótipos de gênero impostos pela sociedade.  As mulheres extraordinárias são as que resistem na Síria, são as que assumem cargos de chefia, são as donas de casa, é a Ana do conto “Amor” da Clarice Lispector, é a Arya de Game of Thrones e também é a Sansa. É a Alice, que, cansada de tanto ser questionada e rotulada, responde ao Absolem quem ela de fato é.

Isso porque eu percebo que, se mulheres não são um bloco homogêneo, não se deve definir uma normalidade de ser mulher. Por isso todas – até aquelas que não passaram na peneira machista – são mulheres extraordinárias. Inclusive eu, que escrevi esse texto, e também você, que o lê.

Texto publicado originalmente em 25 de abril de 2017 no Nó de Oito.


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